A quem recorrer?

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Empresários deverão contar com humanos depois que essa tempestade passar

As consequências do Coronavírus não se enquadram no vocabulário da economia como recessão, nem como depressão. Trata-se de uma ruptura, de “terra arrasada”, a ser sentida durante muitos meses ou anos. Não é objetivo deste artigo abordar as consequências econômicas e sociais, mas sim dar uma opinião sobre o processo de retomada quando a tempestade passar. Aquele momento será de grande sensibilidade de parte a parte, o que favorecerá o aproveitamento do melhor de todos para a reconstrução.

A quem deve o empresário recorrer? Deve recorrer a humanos. Neste texto não colocaremos os conceitos básicos da biomecânica ou da fisiologia humana, nem as características da ergonomia cognitiva e da organização do trabalho, mas sim alguns pontos fundamentais bem conhecidos da psicologia organizacional e da prática de bons gestores de pessoal. E se “ergonomia é adaptar o trabalho às pessoas”, seguir as recomendações implícitas e explícitas relacionadas às 10 características citadas a seguir, pode ser considerado um receituário de ergonomia.

CARACTERÍSTICAS
A seguir, 10 características de humanos que podem fazer a diferença na reconstrução:

1

A motivação de um trabalhador pode oscilar desde o extremo de esforços impressionantes de colaboração até a oposição sistemática – o que queremos aproveitar no momento da retomada é a primeira parte, dos esforços impressionantes dos humanos, muitas vezes indo além dos limites, quando bem motivados.

2

Tempos de penúria coletiva costumam fazer despertar o melhor das pessoas – e o melhor de trabalhadores, gestores e empresários, a ser devidamente investido, é o senso de solidariedade, motivado pela necessidade comum, de que as coisas melhorem. Outro ponto importante é que, nesses momentos, são descobertas alternativas tecnológicas que perduram após a penúria. Ou ainda, nesses tempos, as pessoas se desenvolvem em tecnologias que irão fazer a diferença mais adiante.

3

As pessoas têm anseios, expectativas, esperanças e emoções – muitos anseios e expectativas, de empresários e de empregados, serão adiados. Mas se canalizarmos a atitude e a emoção dos humanos para a palavra esperança, a saúde mental será preservada e, até mesmo, melhorada.

4

As pessoas necessitam perceber coerência – esse conceito é importante, no sentido de que o trabalhador perceba, nas atitudes dos gestores e das empresas, uma repartição do sacrifício, bem como repartição dos benefícios decorrentes do esfor-ço coletivo.

5

Onde há gente, há conflitos, mas o conflito pode ser energia de mudança – os conflitos, nesta fase da tempestade, tendem a aumentar ou a diminuir, conforme são canalizados. A canalização dos conflitos para energia de mudança exige um ponto de amadurecimento dos gestores: primeiro, de realmente passar para os trabalhadores o sentido de coerência, de que todos estão sofrendo com o momento; segundo, de atitude mental, de fazer uma espécie de shift nas tensões apresentadas, com a mentalidade sincera de não aceitar os conflitos como negativos, mas levando todos para o lado positivo.

6

As pessoas têm “pontos de amolecimento” – esse termo é usado para denominar alguns comportamentos no relacionamento de pessoas que fazem a pessoa mudar de atitude, aceitando o outro. O momento atual exige gestores de produção, de RH, de segurança e de medicina de bom relacionamento com os empregados. Os profissionais de ergonomia em geral têm essa característica. Provavelmente, o ponto de amolecimento que os trabalhadores mais percebem é a empatia: o gestor se interessa pelos problemas do empregado.

7

As pessoas necessitam de um certo grau de flexibilidade – o retorno aos processos produtivos poderá ser menos traumático se considerarmos essa característica. Assim, gestores e supervisores de primeira linha devem estar atentos para o fato de que haverá uma tendência a algum grau de sobrecarga física e psicológica na retomada, cabendo ao profissional de ergonomia sinalizar o risco de ruptura e procurar instituir mecanismos de regulação. Quem estuda ergonomia entendeu a abrangência deste conceito.

8

Mesmo o mais simples dos indiví-duos costuma ser melhor do que o mais sofisticado em pelo menos um ponto – esta é a hora da humildade de gestores e empresários saberem que necessitam, efetivamente, dos trabalhadores para sua reconstrução. E que, nesse cenário de “terra arrasada” ou “semiarrasada”, precisamos de todos, não só de engenheiros, técnicos e aqueles dotados de MBA, mas dos operadores mesmo, muitas vezes do mais simples dos ajudantes.

9

Existem dois seres humanos: um quando está sozinho e outro quando está em grupo – essa é também a hora de formar o moral necessário para o momento utilizando a força do grupo. As técnicas de comunicação autêntica com o conjunto dos trabalhadores, reuniões da equipe face a face, ouvindo suas demandas e se interessando por elas, se tornam de alto valor. O grande enfoque, no momento, é que os grupos estejam coesos, com o objetivo de reconstrução.

10

As pessoas funcionam segundo a previsão em si mesmo realizável: elas agem segundo o que pensamos delas – essa característica, frequentemente esquecida, é responsável pelo lado negativo do ciclo vicioso, e no lado positivo, pelo ciclo virtuoso. Quanto mais investirmos nos nove itens anteriores, mais a roda do ciclo girará a favor da reconstrução.

CICLO VIRTUOSO
Assim, a essência da mensagem deste texto é: acredite nos trabalhadores para a recuperação econômica de sua empresa!

E, nesse cenário de necessidade de uma simbiose entre empresários para recuperar seus ativos e melhorar seu EBITDA (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) e trabalhadores para manterem ou recuperarem seu emprego, o investimento em ergonomia apresenta seu momento ótimo. Nem que seja por reciprocidade aos esforços dos trabalhadores para a recuperação econômica da empresa. Será o momento de se fazer o Inventário de Riscos Ergonômicos previsto na nova NR 1 e elaborar planos de ação de curto e médio prazo visando a melhoria das condições de trabalho. Esse panorama ergonômico, construído com a participação dos operadores e engenheiros, e com planos de ação que também envolvem a atuação dos trabalhadores, terá como consequência um reforço ainda maior de todo o resultado positivo de engajamento dos trabalhadores citado anteriormente, E aí começará o ciclo virtuoso da prosperidade porque, gradativamente, o empresário verá que o investimento em ergonomia, especialmente nas indústrias, tem enormes consequências de, por si mesmo, trazer ganhos financeiros e de produtividade. Mas isso é assunto para um pró-ximo artigo.

Em tempo: meus cumprimentos aos colegas médicos e de enfermagem envolvidos na luta para salvar vidas em hospitais e serviços de saúde, muitas vezes arriscando sua própria saúde. Meus cumprimentos aos profissionais da Medicina do Trabalho das institui-ções de saúde e de outras atividades que estão sobrecarregadas pela pandemia. Só posso lhes passar minha solidariedade e, a exemplo da grande população do Brasil e do mundo, meu aplauso por este esforço.

Fonte: Revista Proteção

2 Responses

  1. Odair Rodrigues

    Olá amigos, bem pertinente esse artigo. Só acho que hoje existe muitos empresários que não valorizam os seus funcionários. E muitos líderes dentro das empresas que não estão preparados para lidar com pessoas. Quando a qualidade cai e o clima organizacional não é dos melhores, a causa raiz do problema vem de cima.
    A falta de reconhecimento e a falta de incentivo financeiro faz com que a rotatividade aumente.
    Aos empresários… muito cuidado. Pois os que cuidam da sua empresa, cuidam principalmente das pessoas que fazem a empresa se manter de pé. A melhor empresa para se trabalhar é aquela que cresce junto com o com os seus funcionários. Se o funcionário vai mal… a empresa está mal.

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